Vitória: Delícia de ilha

Falar de Vitória, capital onde nasci e cresci até o vestibular me enviar como mais novo cidadão da cidade maravilhosa, tem sempre um gosto de nostalgia.  São tantas memórias envolvidas que fica difícil ter um olhar totalmente imparcial quando retorno à minha terra natal.  Do Rio, migrei para os EUA, onde vivi por mais de uma década.  Durante minha american life sempre fiz questão de retornar periodicamente para visitar a família e amigos.  Uns dizem que nesse meio tempo fiquei com jeito de gringo e, talvez até, com um jeito meio americano de ser.  Na verdade, nem sei muito bem o que isso significa, e sempre quando questiono esse significado, sou logo direcionado ao meu cabelo loiro e fim de conversa.    A verdade é que fiquei com um olhar um pouco estrangeiro de ver as coisas, não somente a minha cidade natal, meu berço, mas assim como todo o meu viver de volta ao Brasil.

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Praia da Curva da Jurema

Quando surgiu a oportunidade de morar fora do país, não pensei duas vezes.  Fiz as malas e parti para a Pensilvânia.  Já havia feito um ano de intercâmbio como estudante estrangeiro de High School nesse mesmo estado americano um ano antes.  Então, já conhecia um pouco sobre o lugar e pude embarcar sem muito medo do que me esperaria nessa nova jornada de volta a terra do Tio Sam.  Foram mais de dez anos estudando nos EUA, do bacharelado ao doutorado, na área de comunicação.  Durante essa década muita coisa mudou no Brasil.  Vitória cresceu.  Mas a maior diferença acho que foi na mudança interna dos olhos de quem passou a enxergar tudo sob o ponto de vista de um outsider, ou daquele que está de fora e de fora pode perceber os erros e acertos de sua terra natal de uma forma menos emotiva e mais racional.

Vitória é uma metrópole que cresceu bastante nos últimos dez anos.  Apesar de ter seus problemas de trânsito lento durante as horas de pico, como qualquer outro centro urbano brasileiro,  Vitória conseguiu se urbanizar de forma ordenada.  Contudo, o mais interessante de Vitória é que, mesmo com todo o seu crescimento, a cidade reteve consigo o charme de uma cidade pequena.  Vitória impressiona pelo cuidado na manutenção de suas calçadas e jardins, e na limpeza que se pode observar pelas suas ruas.  Sua beleza natural assemelha-se a um Rio de Janeiro em miniatura com suas inúmeras praias e montanhas ao seu entorno.  A Terceira Ponte que liga Vitória a Vila Velha, segunda maior cidade do Espírito Santo, também em muito faz lembrar a ponte Rio-Niterói, que faz a ligação da capital carioca à segunda maior região metropolitana do Rio.  Tudo, claro, em versão miniaturizada na capital capixaba.

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A Terceira Ponte ao por do sol

Mas se há algo que o progresso não mudou em nada em Vitória, foi em relação a sua tradicional moqueca, ou em bom capixabêz, ‘muqueca’.  O prato típico capixaba, que tem como rival a moqueca baiana preparada com leite de côco e azeite de dendê, continua o mesmo ano após ano.  De origem indígena, a moqueca capixaba é mais leve que sua rival baiana, pois cozinha lentamente o peixe em um leve caldo temperado na panela de barro com pouco além de azeite, tomates, pimentões, cebolas e urucum.  E para acompanhar, nada de complicar muito para não ofuscar os aromas que emanam das panelas de barro.  Arroz branco e pirão se encarregam de completar a típica refeição.

A única preocupação que paira no ar da capital, literalmente, é o pó de minério de ferro.  Quando era pequeno lembro bem de como era andar descalço pela casa dos meus pais. Em menos de 1 minuto ficava com as solas do pés pretas devido a poeira escura que vinha pelo ar e que se assentava dia e noite no solo, fruto da extração do mineral e seu escoamento pelo porto de Vitória.  Durante os anos que morei nos EUA, o problema foi contido com a instalação de filtros pelas companhias mineradoras.  Meus pais diziam ser um alívio não ter que aspirar o fundo da piscina todos os dias para retirar a camada preta de pó que lá também se assentava. Infelizmente o problema parece estar de volta.  Se nada for feito, toda a beleza dessa cidade, que tudo tem para ser um modelo de progresso e urbanismo sustentável, ficará encoberta e manchada por sua grande nuvem de poeira preta.

 

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Ilha do Frade ao fundo

 

Gus Dantas, publisher gusdantaslife, nasceu em Vitória e sempre acompanha o crescimento de sua cidade natal em visitas a família e amigos. Uma versão anterior desta coluna foi publicada em 2015.


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