Saboreando um Pequeno Mundo Verde

Já experimentou ter uma plantinha em casa?  Não estou falando de jardins elaborados que dão trabalho a quem cuida (esses também podem trazer imenso prazer aos assíduos jardineiros). Estou falando de uma plantinha ou duas, um vasinho que seja, no cantinho de casa ou no parapeito da janela do apartamento.  Para mim, ter uma plantinha não significa trazer somente um pouco de verde para dentro da vida, mas sim aprender dia após dia com algo vivo que cuidamos e aguardamos crescer.  Nesse aguardar, o prazer de ver e colher pequenos frutos vindos diretos da nossa dedicação e atenção fazem com que muito se desenvolva a nossa frente, nos ensinando pequenas lições que tem o poder de transformar nosso infinito particular.

Mudas de Jabuticabeiras

Para quem gosta de cozinhar não há nada mais prazeroso do que poder beliscar a pontinha de um tomilho ou de um ramo de alecrim e dar aquele toque de aroma e sabor especiais a um prato que acaba de sair do forno de casa.  Tudo bem se você costuma comprar comida pronta no supermercado e só usa o microondas para descongelar massas industrializadas.  Mesmo sendo esse o seu caso, uma lasanha congelada pode ficar com bem menos cara e gosto de que foi feita em serie em uma fabrica qualquer se você for a sua janela e apanhar um ervinha de sua própria horta particular.  Basta jogar umas folhinhas de manjericão ou pedacinhos de orégano fresco por cima da comida, ali mesmo dentro da própria embalagem plástica em que veio, antes de levar tudo a sala para ser devorado em frente a televisão. Posso afirmar com convicção que essa mesma comida se vai se transformar em algo bastante diferente e muito mais saboroso com as pitadas de ervas colhidas do seu jardim.

Além de poder melhorar o sabor da sua comida, ter algo verde em casa, como um vasinho de ervas aromáticas, tem muito a ensinar. Penso logo em três ensinamentos vindos do plantar, cuidar e colher.  Ou melhor, plantar para ter o que cuidar e depois poder ter o prazer em colher.  Garanto que a essa altura muitos devem estar pensando: Hmm, isso vai me dar trabalho… . Bem, tudo na vida da um pouquinho de trabalho.  Ate mesmo postar uma foto no Instagram ou compartilhar uma noticia no Facebook, ou ate mesmo responder a uma mensagem no whatsapp.  Tudo isso requer ao menos um pouco da nossa atenção, e sim, pode dar um pouco de trabalho. Mas no dia a dia executamos essas e tantas outras funções parecidas que elas acabam ficando automatizadas no nosso quotidiano e consequentemente não pensamos duas vezes em batucar no celular para responder imediatamente ao whatsapp que acabou de chegar ou para postar aquela selfie no exato momento que decidimos eternizar uma imagem pessoal.  Então, plantar e cuidar de algo verde pode dar menos trabalho do que ter que responder a aquela mensagem chata no celular de gente sem noção que insiste em perturbar nas piores horas.  As plantinhas sempre ficam quietinhas no seu lugar, aguardando um pouquinho de agua e luz, crescendo sem dar um pio. Uma hora elas começam a crescer, logo abrindo uma flor e depois produzindo sementes. Fácil e simples assim.

Plantar algo, para mim, tem o mesmo sentido que iniciar algo novo e aprender a ter disciplina, algo que vai muito além de um pequeno projeto verde.  Por exemplo, escolher o espaço físico mais apropriado onde colocar o vasinho com a semente ou a muda já pronta lida com nossa capacidade de decisão e estratégia.  A quantidade de sol e agua que a planta vai precisar ao longo de seu desenvolvimento impulsiona essa capacidade ainda mais além.  Cuidar de uma planta para que tudo corra bem no processo do seu crescimento requer não somente disciplina mas também paciência, algo não muito comum nos dias de hoje quando tudo chega de uma forma instantânea e se torna obsoleta ao piscar de olhos.  Fico admirado como quase tudo hoje em dia tende a cair no esquecimento em muitas ocasiões em questão de apenas algumas horas.  E talvez mais do que dedicação e paciência, o mundo verde tem a capacidade transformadora de nos ensinar sobre o colher.  Toda a dedicação e paciência uma hora trazem o retorno em forma dos frutos provenientes do nosso trabalho e nosso cuidado.

O mais importante disso tudo, na minha opinião, vive na possibilidade em ter muito o que aprender com um simples vasinho de manjericão dentro de casa.  Ele pode ser, a primeira vista, apenas um simples pote de plástico cheio de terra com um raminho de quase nada no seu interior.  Ou pode ser um ser vivo que vai nos ensinando dia após dia sobre virtudes que podemos carregar conosco do jardim para a vida.  Na verdade, tudo não passa de uma questão da nossa visão pessoal sobre como enxergamos aquilo que vivemos.  Aqui, a velha historia das duas visões que podemos ter sobre o copo com agua pela metade se faz presente.  Uns veem o copo com agua pela metade como meio vazio, pois ainda falta metade dele a ser preenchido. Outros já veem o copo como meio cheio pois falta somente a metade dele a ter o seu restante preenchido.  O mesmo copo e a mesma quantidade de agua no seu interior produzem reações e visões distintas dependendo de como o enxergamos.  Ora de forma positiva, como algo em andamento para se chegar a plenitude, ora de forma negativa, como algo que ficou pela metade e não terminou de ser executado como deveria. E assim podemos enxergar tudo ao nosso redor, inclusive a planta que cresce quieta no canto de casa, ora dando trabalho no seu cultivo, ora dando prazer no seu crescimento e desenvolvimento.

Então tente arrumar um vaso com um pouco de terra e jogue uma semente no seu interior. Regue, cuide e aguarde.  Da terra nua vai brotar uma vida e dessa vida você vai ter frutos.  Observe sua planta crescer e siga sua vida. Plantando, cultivando e colhendo seu copo nunca mais vai estar meio vazio mas sim sempre se enchendo de vida que cresce, floresce, e faz brotar um mundo de coisas boas ao seu redor.

 

Gus Dantas, Publisher gusdantaslife, cuida bem de suas plantas e uma versão desta matéria foi anteriormente publicada em 2015.


3 comentários sobre “Saboreando um Pequeno Mundo Verde

  1. Sinto uma falta da minha infância no Rio grande do sul quando aprendi com meus pais a lidar com a terra tradição essa herdada da descendência italiana trazida pelo meus bisavós e avos maternos em meados da década de 30 e 40 do seculo passado, essa tradição foi passada por geração em geração na família, hoje moro em apartamento no estado de Santa Catarina, hoje vivo numa selva de pedras, tão perto da natureza e ao mesmo tempo tão longe, sinto falta de plantar, sinto falta do cuidar,sinto falta de colher oque eu mesmo plantei, sinto falta de colocar a mão na terra.

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