O Prazer em Viajar Só

Desde a minha primeira viagem internacional a Disney, no finalzinho dos anos oitenta, que venho anotando toda e qualquer viagem que faço.  O pequeno bloco de notas, que arrumei em um dos primeiros hotéis onde fiquei hospedado nessa minha carreira de viajante do mundo, o Hotel Fairmont, já está bem velhinho e precisando de uma repaginada.  Enquanto passava os olhos pelas folhas que já estão quase todas se soltando, comecei a contabilizar minha leva de viagens desde então.  Já se foram mais de duas décadas visitando esse mundão e 57 países por onde tive a oportunidade de fincar os pés.

Mas foi somente nos últimos cinco anos que tomei gosto por viajar sozinho.  Anteriormente costumava viajar em grupo, como em excursões com gente da minha idade, ou com minha família para comemorar alguma data especial, ou com Kevin, meu grande companheiro de aventuras que sempre deixava sob minha responsabilidade programar o novo itinerário já que sabia que eu adorava “viajar” na programação bem antes da viagem propriamente dita acontecer.  Só que como minha sede por viajar sempre foi maior que a desses meus companheiros de turismo, resolví há uns anos atrás arriscar sair por aqui e alí em carreira solo. Foi uma ida sem volta.

Hoje em dia não penso duas vezes nem por um segundo sequer em jogar algumas peças de roupa dentro da mala e partir para algum lugar desse mundo tendo como companhia apenas os meus pensamentos.  Alguns podem achar que viajar sozinho é uma experiência muito solitária e que a viagem não seria a mesma sem ter alguém viajando junto para se embrenhar em alguma aventura, ou para decifrar o mapa de uma nova cidade, ou para dividir o quarto de hotel, ou até mesmo para não ter que fazer as refeições em silêncio. Com o tempo aprendí que tudo na vida é uma questão de percepção e que esses medos todos podem na verdade ser transformados em experiências altamente gratificantes e compensadoras.

Quando viajo sozinho sinto que todos os meus sentidos estão à flor da pele,  e assim sendo tudo o que vivencio chega até mim com uma carga emocional diferente e especial.  Não há ninguém para controlar, atrapalhar ou diminuir as emoções com as quais me deparo.  Acredito que a intensidade de por exemplo me achar no meio de uma imensa cidade onde nunca havia antes pisado, ou de saborear algo novo, ou de arranhar algumas palavras em uma língua estranha para fazer contato, são todas exacerbadas pelo fato de estar apenas comigo mesmo e por ter que me virar para fazer com que tudo aconteça.  Esses desafios podem a princípio parecer algo assustador.  Porém, o prazer da recompensa em ter novas cidade desbravadas, com novos visuais cravados na memória, novos sabores degustados, e novas emoções vividas, por ninguém além de mim mesmo, é uma das mais incríveis sensações.

Viajar sozinho pode não ser para todos mas não há como negar a profunda intensidade de como tudo é vivido quando se está sozinho.  Comparo muito as minhas viagens como uma ida ao cinema.  Quando vou junto de um companheiro cinéfilo é quase inevitável um pequeno comentário aqui e alí sobre algo que me interessa ou me emociona.  Quando vou com um grupo, a experiência do filme é mais como uma atividade conjunta, um passeio com a turma, do que o filme e sua história propriamente ditos. Mas quando as luzes da sala se apagam  e não estou acompanhado de mais ninguém além do meu próprio silêncio e meus pensamentos, mergulho de cabeça nas águas da história a minha frente e vivo cada momento do filme como se fizesse parte daquilo tudo que está diante dos meus olhos. Viajar sozinho é assim. É um mergulho nas emoções e nos sentidos. É a história de um filme onde sou o diretor, roteirista e ator principal e onde o desfecho sempre tem direito a um novo capítulo e uma continuação.

E assim sendo, nos últimos 5 anos, viajei bastante sozinho visitando os Andes peruanos, lagos bolivianos, geleiras equatorianas, vinhedos argentinos, montanhas chilenas, desertos americanos, praias caribenhas, cidades européias, templos japoneses, muralhas chinesas, vulcões havaianos e lugares sagrados do Oriente Médio. E aos poucos vou aqui dividindo todas essas histórias e também todas as outras que vierem pelo futuro. Sozinho mas nunca só, tenho certeza que terei por aqui boas companhias para compartilhar muitas e muitas aventuras pelo mundo.

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* Gus Dantas, Publisher gusdantaslife tem prazer em viajar sozinho ou acompanhado desde que esteja sempre viajando, ou planejando viajar. Uma versão anterior desta coluna foi previamente publicada em 2015.


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