Road Trip: Rodando por Estradas e Caminhos Interiores

Sentado no parapeito da janela do meu quarto de hotel da cidadezinha de Primm no estado americano de Nevada dou bom dia ao céu azul limpo e repleto de sol que desponta nas montanhas áridas do deserto de Mojave.  Percorri milhas e milhas de carro numa ‘road-trip’ que me levou desde a costa do Pacífico, na cidade californiana de San Diego pertinho da divisa com o México, até o meu destino final deserto adentro, onde logo chego: a cidade neon que nunca para de Las Vegas.

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California

Já fiz ‘road-trips’ (viagens de estrada) semelhantes quando anos atrás percorri sozinho os caminhos sinuosos do Vale del Maipo no Chile até o Parque Nacional de El Morado no pé da Cordilheira dos Andes para dias de caminhadas intensas a lagos alpinos e montanhas glaciares. Ou quando saí, também sozinho, de carro pelo Vale da Morte na Califórnia até o segundo ponto mais baixo da terra sob o sol escaldante de 40 graus.  Lembro das batidas fortes do meu coração quando me deparava com alguma montanha coberta de gelo ao virar de uma curva nas estradas de pedregulhos Chilenas, ou nas longas descidas de imensas retas do asfalto escaldante ao longo de montanhas, dunas e chão craquelado do Vale da Morte. Junto a tudo isso, deixava o som alto dentro do carro para cantar com toda vontade e energia músicas que acabavam virando hinos de viagem, e que se as escuto hoje em dia, não deixo de lembrar desses momentos ao volante.

Outras ‘road-trips’ fui acompanhado de família, quando percorremos juntos os penhascos da bela costa Amalfitana ao sul de Roma, ou a região dos vinhedos na África do Sul próxima a Cidade do Cabo. Nessas viagens também sentia o tum-tum do coração, mas era um tum-tum interno e mais comedido para deixar mais a vontade (e menos atormentados) meus companheiros de estrada. Em viagens acompanhado, a música no carro toca mais baixinha, a velocidade fica menos intensa e o senso de responsabilidade em alerta máximo. Mas nada disso tira o brilho dos meus olhos em desbravar novos caminhos e seguir rumo a partes do mundo onde nunca antes estive.

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Cape Town

Também já tive momentos de estrada com um grande parceiro de volante onde desbravamos o interior da Irlanda observando castelos e construções medievais desde Dublin até Shannon, ou percorrendo praias e cidades costeiras do Mediterrâneo em busca de sol, boa comida, e maravilhas da arquitetura antiga.  A primeira vez que peguei um carro acompanhado li que parceiros de estrada ou serão sempre bons amigos pela compatibilidade dentro do confinamento por horas de um automóvel, ou nunca mais vão querer ver a cara um do outro pelas brigas que brotam a cada esquina desde o tipo de música que querem escutar ou a quantas vezes devem parar para comprar um saco de batatas chips ou usar o banheiro. Posso dizer que a compatibilidade foi tanta que em mais de uma década foram muitas e muitas estradas, carros e lugares nas Américas, Europa, Ásia e Oceania dividindo o gosto por viajar e desbravar o mundo.

A sensação de pegar um carro e seguir mapa adentro por lugares desconhecidos é única e talvez difícil de explicar em palavras. Mesmo que a  viagem em si já tenha começado bem antes de tomar a estrada com todos os preparativos de pesquisa de lugares a visitar, onde parar e se hospedar, quando a estrada desconhecida desponta de verdade pela primeira vez no horizonte do itinerário traçado é como se as portas de um mundo novo e inusitado se abrissem. O inesperado finalmente começa a ter a chance de acontecer diante dos olhos e as emoções dentro do peito batem com a intensidade de uma criança que está experimentando o mundo pela primeira vez.

Eu sou assim. Sozinho ou acompanhado observo a paisagem que passa como a criança que nada sabe e que curiosa quer parar a todo momento para sentir, cheirar, tocar e viver tudo com os sentidos a flor da pele a cada curva da estrada.  Assim que deixei a movimentada freeeway de San Diego e comecei a subir as montanhas rumo ao árido deserto do interior da Califórnia por rodovias secundárias o coração já começou a bater mais forte, e claro minhas mãos começaram a suar, como já é de praxe em situações onde me sinto um pouco nervoso. Será que tomei a estrada certa? Será que era essa a curva que devia ter tomado? Será que não estava distraído olhando a paisagem e fui longe demais? Será que tenho gasolina suficiente?  Um turbilhão de pensamentos procuram seu espaço dentro da minha mente até ter a confirmação do gps que tudo está certo e que posso seguir em frente como planejado.

Desta vez, quando atingi a solidão das montanhas do árido deserto de Mojave no interior da Califórnia, chorei.  Chorei muito. Chorei por estar em um lugar tão belo. Chorei por ter o privilégio de poder estar com os pés fincados em uma nova parte do mundo onde nunca havia pisado. Chorei por estar só mas não sozinho, e sim conectado com meus amigos, família e parceiro, seja em pensamento ou em troca de fotos pelo whatsapp. Chorei por saber que a vida me proporcionou isso tudo e que sou um cara de muita sorte e que não desperdiça a menor chance que tem de apreciar a beleza do mundo e da vida.

E depois de chorar eu sorri.  Sorri com a intensidade de quem acredita que sorrir para vida traz a vida sorrindo de volta. E daí lembrei do lema que me acompanha desde a cidade de Vitória, onde nasci, até a cidadezinha de Búzios ao norte do Rio de Janeiro, onde escolhi morar. Sempre que estiver em algum dos quatro cantos do mundo, onde insisto desbravar, não devo nunca esquecer de três simples e belas coisas: live, love, laugh. Viver, amar, sorrir.

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Gus Dantas, Publisher gusdantaslife fez uma road-trip entre os estados americanos da Califórnia e Nevada em novembro de 2015 e uma versão desta coluna foi anteriormente publicada.


2 comentários sobre “Road Trip: Rodando por Estradas e Caminhos Interiores

  1. Nossa, é muito bom viajar de carro em estradas lindas. A Highway 101 é com certeza uma das estradas mais lindas do mundo! E morro de vontade de conhecer a Costa Amalfitana!

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