EUA: O Desembarque na Terra do Tio Sam

Todas as vezes que chego nos Estados Unidos sempre me deparo com um turbilhão de emoções dentro do peito.  O coração bate forte logo na aterrissagem do avião.  Não que tenha medo de avião, pois se fosse o caso ficaria quietinho dentro de casa.  Ou então, viajaria somente de carro, transporte que aliás acho muito mais perigoso do que qualquer outro, especialmente no Brasil onde as estradas são de um modo geral precariamente mantidas e onde uma grande parte dos motoristas com os quais divido essas perigosas estradas parecem estar sempre numa corrida de Fórmula-1.

Talvez o barulho da lataria pesada da aeronave deixando o ar para ir de encontro ao asfalto, e logo em seguida a sua frenagem brusca,  quase sempre me deixam com as mãos úmidas e os lábios secos.  Não há dúvida que o ar dentro da aeronave, que dizem ser equivalente aos ares do Atacama ou do Saara, e a noite devidamente mal dormida mesmo que regada a gotinhas mágicas de um conhecido anti-epilético vulgo rivotril, certamente contribuem para essa minha ansiedade inicial.  Fico mesmo inquieto querendo logo sair daquele espaço confinado e cheio de gente estranha e de cara amassada que mais parece estar vindo de uma noite em um funeral do que chegando ao seu destino.

Quando desembarco nos Estados Unidos sempre fico um pouco nervoso ao passar pelo controle de passaporte, provavelmente por causa dos muitos anos entrando em saindo do país ainda novo e com pouco dinheiro no bolso da época em que fazia faculdade em Nova Jersey.  Durante os anos estudando nos EUA, que somados ao mestrado e ao doutorado na Universidade da Pensilvânia constituíram mais de uma década, eu nunca fui realmente parado pelo controle de imigração, mas sempre me faziam tantas perguntas ao chegar no país que minhas mãos inevitavelmente ficavam geladas e molhadas, parecendo ostras no gelo.  Quando fico nervoso é nas palmas das mãos que entrego o ouro e demonstro todo a minha ansiedade e apreensão.  Sempre fiz tudo direitinho nessas idas e vindas dos EUA, e nunca deixei visto algum expirar, mas sempre ao pisar de volta a América durante minha vida estudantil ficava com a sensação de que eu era apenas um estrangeiro latino vindo tirar proveito do “American way of life”.

Hoje em dia minhas mãos já se comportam bem mais em frente a cabine de imigração.  Mas é engraçado como imagens de vindas anteriores minhas insistem em deixar aquela pontinha de dúvida sobre algo vir a dar errado ao entrar nos Estados Unidos.  Fico apreensivo pensando naquela infame salinha onde visitantes já relataram passar horas sendo questionados sem saber o porquê, ou  quanto tempo ficarão ali, ou até se poderão de fato entrar no país. Sei de casos de pesquisadores que não puderam apresentar seus trabalhos em congressos por apresentar o tipo de visto errado na chegada (o correto neste caso é ter o visto de trabalho e não de turista), ou de familiares que só conseguiram entrar no país depois de apresentar todo o dinheiro e múltiplos cartões de crédito aos agentes americanos.  Um amigo capixaba me contou que uma vez foi parado e levado para uma sabatina de perguntas invasivas na tal sala de imigração.  Somente horas depois ficou sabendo que o motivo da pequena investigação era devido a sua estadia anterior. Ele havia permanecido por alguns dias no país após o vencimento do seu visto, algo que não consiste crime mas acarreta vários problemas no eventual retorno ao país.

Contudo, tudo muda quando escuto aquele tum-tum do carimbo pesado de metal estampando a página do meu passaporte.  Mesmo ainda faltando pegar as bagagens e passar pela aduana, que controla o que entra no país com o visitante, e confirma de fato o “Welcome to the United States”, já me sinto um pouco em casa de novo.  Durante anos o controle aduaneiro também já me aprontou das suas me levando para revista de bagagem a mão após ter a entrada autorizada pela imigração.  Algo ficara marcado no meu visto anterior e todas as vezes que entrava no país não havia modo de escapar da revista detalhada e das perguntas sobre onde estivera e o que carregava comigo na bagagem.  Mas como também nunca carreguei nada na mala além de alguns pacotes de chá verde e algumas barras de proteína para eventuais emergências, nunca me preocupei muito com esse passo final da entrada aos EUA. Meu parceiro de anos de viagem já tentou entrar com uma tora de pau-ferro na bagagem como presente a um amigo que tinha como hobby esculpir madeiras.  Os agentes aduaneiros apenas confiscaram a peça e fim da história.

Porém, passada então a etapa final da entrada no país, a apreensão começa a ir embora de vez e finalmente ceder lugar àquele brilho diferente nos olhos. As últimas portas dos múltiplos corredores dessa parte do aeroporto se abrem e o coração bate forte. Confiante e seguro, sinto que neste momento estou de volta a minha segunda casa.

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Gus Dantas, publisher gusdantaslife, viveu nos EUA durante mais de 10 anos. Uma versão desta coluna foi previamente publicada em 2015.


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